52º Festival de Cinema de Brasília: ‘Fizemos tudo em 2 meses’, diz diretora de longa sobre Dulcina de Moraes

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Por Luiza Garonce, G1 DF

A atriz e diretora Glória Teixeira, autora do documentário "Dulcina", na Mostra Brasília do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — Foto: Mayangdi Inzaulgarat/DivulgaçãoA atriz e diretora Glória Teixeira, autora do documentário "Dulcina", na Mostra Brasília do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — Foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação

A atriz e diretora Glória Teixeira, autora do documentário “Dulcina”, na Mostra Brasília do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — Foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação

Há 13 anos começava o processo de pesquisa que deu origem ao documentário “Dulcina”, de Glória Teixeira, que estreou nacionalmente nesta terça-feira (26) durante a Mostra Brasília do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

As gravações do longa-metragem, porém, levaram apenas dois meses, segundo a diretora. “Somente no ano passado eu realmente comecei a filmar e finalizamos em janeiro deste ano”, disse ao G1.

“Alugamos uma casa no Rio de Janeiro e só não entrevistamos mais pessoas, porque a gente não tinha condições financeiras de manter nossa estadia, alimentação e aluguel de equipamentos.”

“Todos os grandes artistas queriam fazer parte do filme, e todos eram ícones, assim como os que apareceram.”

Glória Teixeira disse que a primeira pessoa que entrevistou foi Paulo Autran (1922-2007), mas o material acabou não sendo aproveitado. “Ficamos horas e horas conversando, mas vazou som de tudo que é lado, gente que chegava pra abraça-lo. Mesmo assim, aprendi muito com ele.”

A diretora também conversou com Marília Pêra (1943-2015), mas não tinha câmeras de qualidade cinematográfica para registrar. “Ela falou coisas surpreendentes, mas não tinha equipamento e também ainda estava fazendo pesquisa.”

Fernanda Montenegro em depoimento sobre Dulcina de Moraes no longa documental "Dulcina", de Glória Teixeira  — Foto: Dulcina/Reprodução

Fernanda Montenegro em depoimento sobre Dulcina de Moraes no longa documental “Dulcina”, de Glória Teixeira — Foto: Dulcina/Reprodução

Entre os que puderam fazer parte do filme estão Fernanda Montenegro, Nicette Bruno, Emiliano Queiroz, Ruth de Souza, Gê Martu e Graça Veloso. Além destes, seis atrizes a interpretaram em diferentes momentos de vida de Dulcina de Moraes.

O documentário faz inserções ficcionais para ilustrar fatos não documentados ou cujos registros se perderam com o tempo. Atuaram Françoise Forton, Bidô Galvão, Carmem Moretzsohn, Iara Pietricovsky, a própria Glória e Theresa Amayo.

Françoise Forton interpreta Dulcina de Moraes no longa documental "Dulcina", de Glória Teixeira  — Foto: Dulcina/ReproduçãoFrançoise Forton interpreta Dulcina de Moraes no longa documental "Dulcina", de Glória Teixeira  — Foto: Dulcina/Reprodução

Françoise Forton interpreta Dulcina de Moraes no longa documental “Dulcina”, de Glória Teixeira — Foto: Dulcina/Reprodução

Esta última esteve na estreia do documentário, no Cine Brasília. Emocionada, com os olhos úmidos após assistir ao filme pela primeira vez, Theresa disse que, participar do documentário, foi “o maior prêmio” que recebeu “na vida”.

“Fico muito emocionada com esse resgate que está sendo feito da mulher extraordinária que ela foi pro teatro brasileiro, e para Brasília, onde fez uma fundação e um teatro. Este filme é uma das pesquisas mais bonitas que já vi.”

“Dulcina merece ser lembrada.”

Theresa Amayo no longa documental "Dulcina", de Glória Teixeira — Foto: Dulcina/Reprodução

Theresa Amayo no longa documental “Dulcina”, de Glória Teixeira — Foto: Dulcina/Reprodução

Um dos momentos reconstruídos foi o nascimento de Dulcina, em fevereiro de 1908, quando a companhia de teatro dos pais dela, Átila Moraes e Conchita, faziam uma turnê pelo Rio de Janeiro.

Conchita entrou em trabalho de parto em meio às apresentações e teve que fazer o procedimento às pressas, na casa de uma senhora que lhe abriu as portas, após a trupe ser rejeitada em uma pousada.

Quando Dulcina nasceu, Átila levou a bebê até a janela para exibi-la aos integrantes da companhia, que aguardavam notícias do lado de fora. Esta foi a primeira vez que recebeu aplausos – e nunca mais parou.

Dentro e fora dos palcos

Cena do longa documental "Dulcina", de Glória Teixeira — Foto: Dulcina/ReproduçãoCena do longa documental "Dulcina", de Glória Teixeira — Foto: Dulcina/Reprodução

Cena do longa documental “Dulcina”, de Glória Teixeira — Foto: Dulcina/Reprodução

Dulcina de Moraes revolucionou o teatro a partir da década de 1930, criando um novo fazer teatral e lutando pela profissionalização do ofício. A atriz e diretora implementou cenários tridimensionais, valorizou o trabalho do figurinista, extinguiu a obrigatoriedade do “ponto” – profissional que ficava logo abaixo do palco e soprava o texto para os atores.

Como lembraram muitos de seus contemporâneos no documentário, Dulcina acreditava em um “teatro vivo”. Por isso, também foi responsável pela expansão da arte, criando a primeira faculdade de teatro de Brasília, entre as décadas de 1970 e 1980.

A artista carioca ainda lutou por direitos trabalhistas a quem se dedicava aos palcos, entre os quais conquistou a carteira de trabalho e o descanso semanal às segundas-feiras.

“Naquela época, as atrizes tinham que fazer uma série de exames médicos para receber uma carteirinha da polícia que era a mesma das prostitutas”, conta a diretora do filme

Curta ‘Encanto feminino’

Cena do curta brasileinse "Encanto feminino", de Fabíola de Andrade e Leonardo Monteiro  — Foto: Leomoncinese/DivulgaçãoCena do curta brasileinse "Encanto feminino", de Fabíola de Andrade e Leonardo Monteiro  — Foto: Leomoncinese/Divulgação

Cena do curta brasileinse “Encanto feminino”, de Fabíola de Andrade e Leonardo Monteiro — Foto: Leomoncinese/Divulgação

Antes da exibição de “Dulcina”, o público do Cine Brasília assistiu ao filme “Encanto feminino”, estreia da diretora Fabíola de Andrade em festivais. A codireção é de Leonardo Monteiro e a trilha sonora de Marcelo Café.

Fabíola é estudante de Letras na Universidade de Brasília (UnB) e desenvolveu o curta-metragem como projeto de conclusão da disciplina “Etnologia Visual da Imagem do Negro do Cinema”, ministrada pela professora e cineasta Edileuza Penha.

Equipe do curta-metragem "Encanto feminino", de Fabíola de Andrade e Leonardo Monteiro na Mostra Brasília do 52º Festival de Brasilia do Cinema Brasileiro  — Foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação

Equipe do curta-metragem “Encanto feminino”, de Fabíola de Andrade e Leonardo Monteiro na Mostra Brasília do 52º Festival de Brasilia do Cinema Brasileiro — Foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação

“Era um trabalho em grupo, mas quiseram cortar o roteiro e entramos em conflito, porque eu era roteirista. Depois da desistência, assumi roteiro, direção, e atuei em dois papéis”. “Foi aí que entrei em desespero e chamei o Leo, que já trabalhava com cinema.

Juntos, eles construíram um filme que aborda a ancestralidade feminina negra por meio das figuras das yabás – as seis orixás femininas do candomblé. “É um filme que fala sobre orgulho, identidade e sobre como a mulher negra sustenta a sociedade.”

“Um elenco totalmente negro e que, de homem, só teve o Leo e o Marcelo Café, mas até a música dele foi uma mulher negra que cantou.”

Adaptações: Alexandre Torres

Guará News

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